E como eu prefiro o canto do camaleão ao canto do cisne, porque mudar é preciso, ou melhor, como diria Lavoisier, "nada se perde, tudo se transforma", chamo Bowie para fazer a transição. Canta, camaleão, "ch ch changes"
E lá se foi Teo Macero, terça-feira, 19 de fevereiro, aos 82 anos. Segundo o New York Times, consumido por uma doença prolongada não revelada.
Novaiorquino, músico saxofonista co-fundador da Charles Mingus Jazz Composers Workshop, Teo Macero dedicou sua vida ao jazz moderno atuando como compositor, arranjador e, principalmente, produtor. Atingiu o ápice da sua carreira quando impôs ao seu ofício um caráter autoral, de co-autor, digamos, na produção de álbuns clássicos da discografia de Miles Davis: "Kind of Blue", "Sketeches of Spain", "In a Silent Way", "A Tribute to Jack Johnson" e "Bitches Brew".
Como tributo a Teo Macero, abordo este último, "Bitches Brew", lançado em 1970, marco redefinidor do jazz e inspirador de uma linhagem de complicadores da música (im)popular bem representada por Brian Eno, Bill Laswell, Jason Swinscoe, do Cinematic Orchestra, Amon Tobin, Mars Volta e Radiohead.
Não me despeço de vocês. Desejo apenas lutar como um soldado das idéias". Penso como (Oscar) Niemeyer que é preciso ser conseqüente até o final".
Fidel Castro, Presidente de Cuba, em comunicado publicado pelo jornal do Partido Comunista de Cuba, o Granma, terça-feira (19), quando anunciou que não concorrerá ao cargo na próxima reunião do Parlamento cubano no próximo domingo, 24 de fevereiro.
Diante deste momento histórico, não poderia deixar brancas nuvens passarem sem tingi-las com as cores da bandeira de Cuba em homenagem a Fidel e à Revolução Cubana. E o faço com os tons da seleta Impop Fuerza, Cuba!, sob efeito do poder transformador da cultura latina.
É Cuba em vários sotaques musicais. Com ritmos que não sonegam a dança mesmo que a melodia não sugestione euforia. Improviso que convida a novidade para um novo sabor, uma nova dose de rum, a cada progressão de cumbia, rumba, son, danzón, salsa, ska. Sinuosidade que não abala o equilíbrio: uma harmonia caribenha. Diversidade que fortalece idéias, alimenta a alma, enfrenta bloqueios, impérios e preconceitos. À prova de embargos. Discurso que por sílabas musicais agradece a Fidel Castro e se solidariza com os cubanos.
GOG, o poeta do hip hop nacional, como é conhecido no meio, adota o pague-o-quanto-quiser para promover o download de "Cartão Postal Bomba", CD ao vivo gravado em Brasília, seu novo lançamento, através do seu site oficial. Um disco que não tem preço de valioso que é. Que prima por rimar liberdade autoral com identidade nacional.
Engana-se quem pensa que GOG pegou carona na moda lançada pelo Radiohead. Ele conhece bem os meandros da divulgação musical alicerçada pela ação colaborativa. É dono da Só Balanço, mix de gravadora, estúdio e loja de discos, mantida, segundo GOG, sob um modelo de autogestão junto aos artistas que lança. O manifesto libertário, como se vê, faz parte de sua obra.
Para o brasiliense GOG, nascido Genival Oliveira Gonçalves, o lançamento comemora os seus 25 anos de militância no cenário independente nacional. Carreira que ostenta um marco no meio hip hop: o álbum Tarja Preta, lançado em 2004, que rendeu a GOG o Prêmio Hutúz de melhor disco do ano.
A capa diz tudo. Informa ao consumidor que ali "contém 23 faixas extraídas da raiz musical brasileira". E sendo remédio de tarja preta, cabe advertir: "venda sob prescrição periférica". É remédio forte que convém (licença, Wado).
Em "Cartão Postal Bomba", seu sétimo disco, GOG faz ao vivo o proposto em "Tarja Preta": coloca o hip hop nacional no colo da MPB. Para tal, cria diálogos à prova de ruídos entre universos musicais aparentemente distintos. Como provam "Lei do Gérson", "Eu e Lenine (A Ponte)", Brasil com P, com participações especiais de Gérson King Combo, Lenine e Maria Rita, respectivamente. São músicas que depõem contra o estereótipo do hip hop carrancudo, sombrio. Mas que não aliviam a contundência do discurso de quem versa sobre o que sente na pele. Em síntese, múltiplas formas de violência social. Temática recorrente no hip hop que nas crônicas poéticas de GOG instigam seu pressuposto revolucionário.
Poeta, cronista, compositor, produtor, GOG tem excelência de autor, ou melhor, como diria o escritor argentino Jorge Luis Borges, é um fazedor. Isto porque sabe harmonizar os elementos necessários para propagar suas mensagens. Peculiaridade de maestro. Sabe, por exemplo, que precisa da verve romântica de Paulo Diniz para sublinhar a carga dramática de "Quando o Pai Se Vai". E funciona: a exarcebação do cantor leva às lágrimas.
É, "Periferia Tem Talento" (faixa do "Aviso às Gerações", de 2006) e também a ciência rimática dos MCs Rapadura e Lindomar 3L. Ou seria melhor chamar de arte o improviso típico da embolada dos interiores do Brasil que eles dominam e representam tão bem? Sendo mestres ou artistas, o certo é que GOG aposta nos moleques. Tanto que serão as próximas atrações da gravadora Só Balanço.
Certamente é para estas produções que deverá seguir parte da arrecadação do "Cartão Postal Bomba". E assim caminha a música periférica brasileira, compartilhando e multiplicando ações. Incluindo. É como GOG pavimenta a trilha dessa música que contesta e subverte a dura (des) ordem social.
A lista das listas. É como considero a lista de melhores de 2007 do site Scream and Yell. Por compilar os eleitos de uma considerável fatia da crítica musical brasileira. Um júri formado por 91 votantes, entre blogueiros, jornalistas, músicos, produtores, escritores, dedicados a análise de vertentes distintas. O resultado, belo mosaico de tendências, não pactua com o pragmatismo reacionário neo-liberal destes tempos. Paixões ideológicas à parte, o que reluz nas entrelinhas é o sinal de consolidação da música independente brasileira. Há algo brasileiro no ar. E com cheiro de novidade. É tempo de mudança.
Dentre os cinquenta discos mais votados, praticamente a metade é composta de brasileiros - 23 discos. O que já é bem representativo, tendo em vista a dura concorrência do mercado internacional, em termos de quantidade de títulos lançados e, porque não dizer, em relação ao maior espaço dado aos gringos pela imprensa especializada. Por ironia, bem representada neste júri.
Nem encaro como tendência. É fato. Basta verificar a curva ascendente da participação nacional nos resultados das edições anteriores da eleição do Scream And Yell.
Mais do que atestado de qualidade, representatividade e da diversidade do cenário musical do Brasil, o resultado estampa a descentralização da produção do eixo Rio-São Paulo. Um dado que comprova a pouca colaboração das grandes gravadoras para a renovação do nosso cenário fonográfico (o top 5 nacional atesta). É o triunfo dos meios alternativos de produção e divulgação. Inclusos no bolo os ainda polêmicos blogs de MP3 e demais meios de compartilhamento de músicas pela internet.
Espero que este resultado faça eco no Brasil. E faço aqui a minha parte: apelo para as maiores promovedoras de grandes eventos musicais no Brasil que de fato alinhem com o que propõem: associar o novo às suas marcas - o tal do branding. Que nesse 2008 não se repita o vexatório descaso (de ter dado um palco que não resistiu à chuva) aos grupos nacionais no Tim Festival 2007, no Rio - porque em São Paulo banda nacional não teve vez.
Consultem a lista do Scream And Yell, curadores. Deixem de lado, que seja por míseras horas, os charts gringos e agendas das bandas que populam os NME´s da vida. Esse, o dos grandes festivais, é um dos pontos importantes da cadeia produtiva musical que precisa ser aquecido, para dar sustentabilidade à nova produção nacional.
Do lado dos independentes, a Associação Brasileira de Festivais Indepentes, Abrafin, como fez em 2007, já se encarrega de viabilizar recursos para reforçar a estrutura de festivais estabelecidos como Abril Pro Rock, No Ar: Coquetel Molotov, Goiânia Noise, Festival Mada... O Humaitá pra Peixe inaugurou a temporada. E mandando bem ao explorar o site do festival para disponibilizar os shows para download. 2008 promete!
O encontro de Robert Johnson com Charley Patton, por Robert Crumb. Dois bluesmans. Duas lendas. Figuras essenciais para estender o espírito inquieto do blues para estes tempos.
Ano novo, vida nova. Chega de dar tempo ao contratempo. Está mais do que na hora de fazê-los, tempo e contratempo, convergir como elementos da harmonia musical que são. Posto isso, uma desculpa e agradecimento aos que visitaram o blog durante minha hibernação, retomo a saudável rotina errante dos impopulares: o bom e velho desafio aos padrões e a eterna sujeição às revoluções do bem! Impop reloaded!
Como o tempo é a pauta seria justo falar sobre Radiohead, cujo conjunto da obra é hoje sinônimo de presente e futuro. Mas, permitam-me, Thom Yorke e cia, vou provocar o futuro com uma dialética que lhe diz respeito: do velho novo, do novo velho. Uma provocação que está na obra de Robert Crumb, do qual pinço da minha prateleira o primoroso livro "Blues". Como diz a nota da edição, é para aqueles que acreditam que a música existe para além da parada de sucessos. Crumb é impop! Aqui vai, portanto, uma homenagem ao mestre!
Além de cartunista e historiador, Crumb é um manipulador do tempo. Usa sua linguagem incorformada para oprimir o ímpeto destrutivo do passar dos anos que apaga memórias e arranca coragem das vísceras. Crumb mostra como devemos ser autores do nosso tempo.
A edição nacional de "Blues" foi lançada no Brasil pela Conrad. É homenagem ao blues, à música dos antigos, de uma época em que vender alma ao diabo não significava se render às futilidades da indústria cultural. Sim, também elabora crítica caústica, rica em humor irônico, às evoluções comerciais da música popular.
O livro, que compila HQs, capas de discos, cartazes e filipetas do gênio do quadrinhos, indaga o blues como expressão artística libertária. Restaura cenários e resgata idéias adormecidas pelo tempo para aplicá-las hoje. Não à toa Crumb é considerado um revolucionário: suas idéias vivem em ação. São trazidas do canto mais remoto da memória, mesmo se lá jogadas, embriagadas por falências e fraquezas. Coisa de poeta de maldito.
A obra de Robert Crumb não vive sem o blues, como o dadaísmo sem a arte, o popular sem o impopular, o tempo sem contratempos. Assim nos transporta para os anos 20 do século passado. Para uma encruzilhada do Delta do Mississipi, onde vive o demo que pactua com os bluesmans, ponto de encontro de Robert Johnson e Charley Patton. De lá ouvia-se um ranger abrasivo em forma de lamento e com energia transformadora.
Robert Johnson e Charley Patton. Dois bluesmans. Duas lendas. Figuras essenciais para estender o espírito inquieto do blues para estes tempos. Patton, para Crumb, foi o professor de Howlin´n´ Wolf, Son House, Tommy Johnson e, claro, Robert Johnson. Todos iam aprender com aquele vadio, um vagabundo incorrigível. Patton era sustentado por mulheres e passava seu tempo no ócio completo. Para o herói de Crumb, o blues era um estilo de vida.
Através da música, do blues, rompendo qualquer barreira entre tempo, vanguarda e realismo, Crumb remonta o ambiente das plantações nas terras de aluvião do Delta do Mississippi. Lugar de sobrevivência de descendentes de africanos escravizados. Aquele lugar remoto da consciência americana passou a ser uma fonte perene de irrigação e fertilização das mentes musicais inquietas.
O aprendizado do blues nas crossroads do Mississipi.
Blues também reconstrói a década de 20 do século passado. Época de muitas revoluções. De aplicação verbal no infinito. O blues nascia para permanecer como representação libertária; os surrealistas libertavam as forças revolucionárias da criação; a vanguarda soviética, de Maiakovski, alinhava com os futuristas sem dissociar arte da vida. Futuristas também foram os modernistas do Brasil que refundaram a arte brasileira naquela semana de 22, entre os dias 11 e 18 de fevereiro.
Sim, hoje vivemos um outro tempo. O mundo inchou, progrediu. Virou tecnológico. Continua, porém, cavando o abismo da desigualdade. Mas as vanguardas continuam dispostas ao triunfo (alô, Radiohead). Partem para o confronto, mixando conceitos, deprezando figurinos, compartilhando, multiplicando idéias alheias aos espetáculos de futilidades corporativas. A visita ao Delta do Mississippi, a Mali, ao Chão de Estrelas de Paulista, Olinda, é necessária para decifrar ou recodificar a função da arte na vida.
Quando Crumb descreve Charley Patton diz que a música dele não pode ser descrita de maneira alguma. Ela precisa ser ouvida. Então, direto de algum quarto de hotel do Delta do Mississippi, para marcar (e celebrar) uma travessia inspiradora para este 2008, mando a primeira "Mixtape Impop" do ano: O Tempo do Blues.
"High Water Everywhere Pt. 1" - Charley Patton
"Traveling Riverside Blues" - Robert Johnson
"You Can't Lose What You Ain't Never Had" - Muddy Waters
"Down Child" - John Lee Hooker
"Mali Dje" - Ali Farka Toure
"Chasin' Rainbows" - Robert Crumb & His Cheap Suit Serenaders
Impop volta a sintonizar sua freqüência ruidosa para capturar uma das novas músicas de PJ Harvey, "When Under Ether" - clique para ouvir, faixa do "White Chalk", disco sucessor do "Uh-Huh Her"(2004) que chega às lojas inglesas e americanas nos dias 24 e 25 de setembro, respectivamente. Um evento de 2007, sem dúvida.
Importa dizer que em nada tem a ver com o escalão de segunda das bandas "mono", em sílaba e som, carentes de estilo, ousadia e originalidade, do tipo Cribs, Rakes e sazonalidades afins. PJ está longe do hype, como sempre! Impop.
Ela está ao piano furioso, sob influência de Leonard Cohen e mestres blueseiros, tocando um blues peculiar levado, quase arrastado, por lentos trôpegos compassos e poesia dos malditos das ruas do outro lado deste mundo.
Do "White Chalk", além da faixa citada, por enquanto na web só dá para encontrar vídeos de músicas tocadas em festivais como "Bitter Little Bird", "The Mountain" e "The Devil", que exibo aqui:
Tony Wilson e sua fantástica fábrica de cultura pop
Voltei para dizer adeus a Tony Wilson, morto de câncer sexta-feira passada, 10 de agosto, aos 57 anos.
Quando li a notícia da morte de Tony Wilson, artífice da cena de Manchester - a Madchester -, fui tomado por um inconveniente sentimento de saudosismo. Sentimento que não convém porque é inoportuno; não cabe na biografia desta figura legendária, empresário, jornalista, produtor, visionário e protagonista de cultura (e sub-culturas) pop. Alcunha esta que, para ele, significava prática da liberdade.
Anthony Wilson viu o futuro na música independente. Nos anos 80, lutou por ela e terminou fabricando pérolas do chamado indie na sua gravadora, a legendária Factory Records, residência de clássicos atemporais do Joy Division, New Order, Durutti Column, Happy Mondays.
Se na Factory o punk obteve uma aguda linha evolutiva, passando a ser identificado como pós-punk, foi no Hacienda, clube co-fundado por Tony Wilson (com o New Order entre os sócios), que o cenário musical de Manchester passou a ser reconhecido como matriz de cultura pop durante os últimos 20 anos.
Mr. Manchester, como era conhecido, assim, tirou de Londres o foco do prolífico cenário musical inglês. Fez da cena de sua cidade uma referência mundial de vanguarda cultural. Fez o futuro acontecer.
A produção musical conheceu o engenho inovador de Martin Hannet, que reorientou a sonoridade do pós-punk.
No campo dos negócios musicais, a partir da experiência da Factory, surgiram modelos de divulgação e produção musical diferenciados. A divisão dos lucros meio a meio mudou o rumo da relação entre bandas e gravadoras. Uma ação política: coloquem trabalhadores no poder para a vida começar a fazer barulho, como fizeram os operários da fábrica de cultura pop da Madchester, a de Tony Wilson.
O padrão era o não-padrão. E a estética rock deu um passo a frente, dançante, reverente aos novos diálogos que surgiam entre funk, rock e tecnologia. Foi com uma certa Blue Monday (hit do New Order) que o mundo (im)pop colocou a acid house debaixo da língua.
Tony Wilson, o Mr. Manchester, um sujeito totalmente integrado com a lógica do seu tempo, agia como um dínamo, reagrupando, reforçando, reciclando fluxos criativos. Madchester, a cidade, a cena, deve seu reconhecimento histórico como fato sócio-cultural a Tony Wilson.
Agora, ao lado de Ian Curtis e Martin Hannet, noutra dimensão, Tony Wilson deixa sua esperteza e sensibilidade como inspiração. Que assim seja, para que em muito breve a cultura pop chacoalhe o conformismo reconectando ousadia com criatividade.
Por enquanto, como diria John Lyndon, o mesmo que com o seu Sex Pistols influenciou Tony e os garotos de Manchester a promoverem sua revolução, não há futuro na Inglaterra das new raves dos novos indies.
Tony, you did a good job. Basically, you were right - Shaun is the greatest poet since Yeats. It has already been written, in the sinews of history and on the hearts of men. It's a pity you didn't sign the Smiths, but you were right about Mick Hucknall. His music's rubbish and he's a ginger.
E hoje é dia do rock. Dia de celebração? De lembrar, com melancolia, Neil Young cantar "hey hey my my rock 'n' roll can never die"? Não vale, né?
Seria uma aumentar o volume do Combat Rock do Clash ou fazer uma trip retro-futurista guiada pelos Diamond Dogs de Bowie para ouvir o camaleão alertar: "this ain´t rockn'roll, this is genocide".
Mas Impop recomenda deixar o rock, esse eterno garoto travesso, dar o recado do dia através do ruído guitarreiro do sempre transgressor Jesus And Mary Chain com "I Hate Rockn'Roll":
I love rock 'n' roll
And all these people with no where to go
I love rock 'n' roll
All these people with nothing to show
I love the BBC
I love it when they're pissin' on me
And I love MTV
I love it when theyre shittin' on me
I hate rock 'n' roll
And all these people with nothing to show
I hate rock 'n' roll
I hate it cause its fucks with my soul
Rock 'n' roll hates me
I hate you rock 'n' roll
I hate (rock 'n' roll hates me)
O fole está roncando, celebrando os símbolos de uma cultura popular retratada com a graça, inspiração e originalidade que fizeram da carreira de Luiz Gonzaga um patrimônio cultural. A obra do Lua é um acervo de inventividade, forte como o sertanejo e rica, entre outras qualidades, por provocar a tradição com a tendência que tem de ser global.
Assim falou Drummund: "só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago". Assim sonhou Gonzagão quando compôs "Pagode Russo": "ontem sonhei que estava em Moscou/ dançando um pagode russo/na boate Cossaco/Parecia até um frevo/ naquele cai ou não cai/parecia até um frevo/naquele vai ou não vai."
Não apenas durante o período junino que o sonho de Luiz Gonzaga se mostra vivinho da silva, mas enquanto os tantos nordestes do Brasil, unos e diversos, dos sertões que viram mar, inundarem o planeta com a poesia dos seus causos e sua prosa festeira, xaxando as tradições no ritmo do arrasta-pé de sua música.
Uma prova foi vista na cosmopolita São Paulo em maio passado, quando a cantora japonesa Miho Hatori, durante sua apresentação no festival Resfest, cantou "Paraíba", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, em japonês, aditada de blips, blops, hips hops do mundo.
A versão interpretada pela ex-vocalista do Cibo Mato foi gravada originalmente no disco "Bonfires of São João", do Forro in The Dark (uma homenagem a "Forró no Escuro", de Luiz Gonzaga). O grupo novaioquino foi fundado pelo percussionista brasileiro Mauro Refosco e tem como guitarrista Smokey Hormel (ex-Beck), com o qual Miho gravou afro-sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes no projeto Smokey & Miho.
O disco, lançado no final de 2006, ilustra a figura de um pau-de-arara às avessas e pós-moderno. Traz o ex-Talking Heads, David Byrne, cantando "Asa Branca", em inglês, numa tradução feita por ele mesmo. Além de revisistar, o Forro in The Dark também revisa a obra de Gonzação com "Wandering Swallow". Antes uma versão sem crédito autoral de "Juazeiro", lançada por Peggy Lee, em 1951, a música ganhou suas palavras originais em português e o luxo eletrônico de Bebel Gilberto.
Bonfires of São João parece mesmo um tributo ao Rei do Baião, mas não se resume apenas à regravações. Como a "Feira de Caruaru", tem de tudo. Exalta também a obra de Luiz Gonzaga operando o coco, xote, maracatu e baião com os experimentos mestiços e bom humor de "Qué que tu fez" e "Lampião do céu". Conexões regionais alheias às fronteiras e trilhadas pela levada da zabumba, guitarras, pífanos, sons e ritmos digitais, fazem de "Índios do Norte" e "Forrowest" o tal pagode russo que um dia sonhou o Lua.
Quando "Cajuína", de Caetano Veloso, dá as caras no arrasta-pé novaioquino do Forro in The Dark, ateia o fogo da fogueira de Gonzagão, que também é da musica contemporânea. Ao seu redor, unem-se modernistas, tropicalistas, mangueboys, trip hip hoppers, remixólogos e demais matutos celestiais da indústria cultural de massa para celebrar o sonho multicultural de Luiz Gonzaga.
Luiz Gonzaga Volta para Curtir
Enquanto a ditadura militar saqueava nossa liberdade de expressão, em 68, o produtor Carlos Imperial plantou o boato de que os Beatles tinham gravado "Asa branca". A lenda serviu para atear o fogo da obra de Gonzagão na MPB.
E o disco "Luiz Gonzaga Volta para Curtir" comprova a introdução da música dos sertões do Brasil no universo da nova MPB. É um registro ao vivo de um show realizado no Teatro Tereza Rachel, em 1972, no Rio de Janeiro. Mostra o Rei do Baião em sua plenitude artística, xaxando, forrozando, contando causos, representando o caboclo (segundo o Lua, bicho, para a juventude carioca) e confundindo com sua nata irreverência, por vezes até ingênua.
A juventude presente ao local militava em prol da liberdade de expressão no auge da repressão política. Conduzida ao teatro por incentivo da dupla tropicalista Caetano/Gil, recém chegada do exílio londrino, não sabia ao certo que estaria assistindo a uma apresentação de uma figura-chave na compreensão de toda uma teia de signos que alimentavam tanto os valores da resistência política quanto da inteligência golpista do regime militar.
Os jovens esbarraram com um mito da chamada cultura popular, tão discutida no meio intelectual. A linguagem de Luiz Gonzaga, embora simples, estéticamente falando, era compromissada com a alegria e com a expressão da liberdade. Avessa, conseqüentemente, a contornos conservadores.
É o que fica claro quando Luiz Gonzaga, com a mesma habilidade que elabora melodias irretocáveis em sua sanfona, ridiculariza o coronelismo (disfarçado de antes e o explícito da época) num discurso desferido antes do medley Qui nem Jiló/Óia Eu Aqui de Novo: "o sertão das políticas, das futricas dos cabras valentes e dos cabras frouxos também".
O Rei do Baião é a celebração máxima de um estilo de vida que não se deixou seduzir pelas mazelas comportamentais da mídia de massa e que até hoje ilumina as cabeças pensantes com os símbolos que sustentam a tradição cultural traquina do Brasil.
Mixtape Impop - Pagode Russo: de Gonzagão para o mundo
Tudo na sola do pé, no pé do ouvido, no ritmo do xaxado, sacolejo do forró, ateando a fogueira do Gonzagão com baião, hip hop, trip hop, manguebeat. Quarenta e poucos minutos de leituras, revisitas, releituras, influências e homenagem ao Rei e gênio do Baião de Viramundo.
Luiz Gonzaga - Pagode Russo*
Forro in the Dark - Asa Branca feat. David Byrne**
Nação Zumbi - O Fole Roncou***
Luiz Gonzaga - Pau De Arara****
Forro in the Dark - Paraiba feat. Miho Hatori**
Black Alien & Speed Freaks - Vozes Da Seca***
Luiz Gonzaga - A Feira De Caruaru****
Forro in the Dark - Forrowest**
Mundo Livre S.A - Dezessete E Setecentos***
Forro in the Dark - Índios do Norte**
Naná Vasconcelos e Luis Carlos - Juazeiro***
Luiz Gonzaga - Qui Nem Giló****
Carlos Freitas
Trafica, reporta, manipula e produz música. Já foi guitarrista do Mundo Livre
S/A,
colaborador da Showbizz e repórter de música do jornal
Folha de
Pernambuco.